Em questão de minutos, um pequeno foco de incêndio pode se transformar em uma tragédia se não houver pessoas treinadas para agir. O Brasil já vivenciou incêndios de graves proporções, como o do Edifício Joelma em 1974 – onde faltavam medidas básicas de segurança, inclusive uma brigada de incêndio, e hidrantes funcionais – e o da Boate Kiss em 2013, que vitimou 242 pessoas em Santa Maria (RS).
Esses casos emblemáticos ressaltam por que o treinamento de brigada de incêndio deve ser uma prioridade nas empresas. Neste artigo, explicamos o que é a brigada de incêndio e seu treinamento, os benefícios e obrigações legais envolvidos, além de exemplos reais que reforçam a importância de investir na capacitação de brigadistas para proteger vidas, patrimônios e o seu negócio.
O que é a Brigada de Incêndio e como funciona o treinamento
A brigada de incêndio é um grupo organizado de pessoas treinadas dentro de uma organização (empresa, condomínio, etc.) para atuar em situações de emergência, especialmente princípios de incêndio e evacuações. Em geral, os brigadistas são funcionários ou membros do local que, voluntariamente, recebem capacitação para prevenir incêndios, combater focos iniciais de fogo, coordenar a saída segura de ocupantes e prestar primeiros socorros até a chegada do Corpo de Bombeiros.
O treinamento de brigada de incêndio abrange aulas teóricas e práticas, conforme orientam as normas técnicas. Por exemplo, cursos de brigadista incluem noções sobre prevenção de incêndios, classes de fogo, manuseio correto de extintores e hidrantes, técnicas de evacuação, uso de alarmes de emergência e atendimento de primeiros socorros. As aulas práticas costumam envolver simulações de princípios de incêndio, para que os participantes aprendam a usar os equipamentos e a agir sob pressão de forma segura. Essa combinação teórico-prática é essencial para formar brigadistas capacitados a tomar decisões rápidas e eficazes em caso de sinistro.

Uma característica importante é que os brigadistas são integrantes da própria organização, atuando de forma voluntária além de suas funções normais. Assim como membros da CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes), eles se comprometem com a prevenção durante todo o expediente e passam por treinamentos periódicos para manter a prontidão. É recomendável realizar simulados periódicos de evacuação, de modo a fixar os procedimentos entre os colaboradores e identificar melhorias no plano de emergência.
Importância e benefícios do treinamento de brigada de incêndio
Investir na formação de uma brigada de incêndio traz diversos benefícios para a empresa e seus colaboradores, que vão muito além do cumprimento da lei. Em resumo, os principais ganhos e importâncias são:
- Proteção de vidas e redução de ferimentos: A principal prioridade é preservar a vida de funcionários, clientes e visitantes. Uma brigada treinada consegue conter princípios de incêndio e realizar evacuações de forma rápida e ordenada, evitando pânico e salvando pessoas em perigo. Com brigadistas a postos, reduz-se significativamente o risco de vítimas em um incêndio, pois há resposta imediata enquanto os bombeiros profissionais estão a caminho.
- Proteção do patrimônio e continuidade dos negócios: Agir prontamente contra um princípio de incêndio também minimiza danos às instalações, equipamentos e mercadorias da empresa. Isso pode evitar perdas materiais de grande monta e reduzir o tempo de interrupção das atividades. Em outras palavras, uma brigada bem treinada ajuda a impedir que um incidente se torne um desastre que paralise as operações por longos períodos. A própria existência de pessoas capacitadas no local diminui a extensão dos danos antes que o fogo seja extinto.
- Prevenção de acidentes e cultura de segurança: Os brigadistas não atuam apenas durante emergências – eles têm um papel preventivo e estratégico no dia a dia da organização. Entre as suas atribuições está verificar as condições de segurança, identificar riscos de incêndio (como fiação exposta, armazenamento inadequado de inflamáveis etc.), inspecionar extintores e saídas de emergência, além de promover exercícios simulados regularmente. Isso significa que a empresa passa a ter olhos treinados internamente para prevenir acidentes, fomentando uma cultura de segurança e vigilância contínua. Essa cultura contribui para reduzir a ocorrência de sinistros e garante conformidade com normas de saúde e segurança do trabalho.
- Atendimento emergencial e primeiros socorros: Em caso de qualquer acidente ou mal súbito nas instalações, a brigada de incêndio geralmente também é treinada em primeiros socorros básicos. Assim, além de combater incêndios, os brigadistas conseguem prestar os primeiros atendimentos a vítimas (por exemplo, em casos de queimaduras, cortes, desmaios ou princípio de asfixia por fumaça) enquanto aguardam socorro especializado. Esse pronto atendimento pode salvar vidas e reduzir a gravidade de lesões, evidenciando mais um benefício direto do treinamento.
- Cumprimento da legislação e evitamento de penalidades: Ter uma brigada treinada não é só voluntário – em muitos casos é uma exigência legal para que a empresa esteja em dia com as normas de segurança contra incêndio. Empresas que investem em treinamento atendem às regulamentações (como veremos adiante) e, com isso, evitam multas, interdições ou até mesmo a perda de alvarás. Além disso, demonstra aos órgãos fiscalizadores um compromisso ativo com a segurança. Na prática, contar com brigadistas e equipamentos em ordem é requisito para obter o AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros) em diversas edificações, garantindo que o negócio possa funcionar regularmente.
- Valorização da imagem da empresa e responsabilidade social: Do ponto de vista institucional, empresas que zelam pela segurança de seus funcionários e do público têm sua imagem fortalecida. Investir em prevenção de incêndios e capacitação de pessoas demonstra responsabilidade social e comprometimento com o bem-estar coletivo. Em caso de emergência, a diferença causada por uma brigada eficiente pode ser significativa – o que evita manchetes negativas e gera confiança em clientes, parceiros e na comunidade.
Em resumo, a brigada de incêndio serve para preservar vidas, reduzir perdas e impactos sociais, ambientais e financeiros de um sinistro. No limite, o melhor benefício é algo que não aparece: é a prevenção de acidentes. Quando há uma equipe vigilante e treinada, muitos incidentes podem ser evitados antes mesmo de começarem, seja desligando um equipamento superaquecido, removendo obstruções de rotas de fuga ou orientando colegas quanto a procedimentos seguros. Essa atuação preventiva é silenciosa, mas inestimável para manter um ambiente de trabalho seguro e saudável.
Casos reais: lições de tragédias e exemplos de sucesso

Infelizmente, a história nos mostrou de forma dura as consequências da falta de preparação contra incêndios. O incêndio do Edifício Joelma, em São Paulo, permanece como um dos episódios mais trágicos: em 1974, um curto-circuito desencadeou chamas no prédio comercial de 25 andares, e não havia brigada de incêndio no local, nem plano de evacuação ou sistemas de combate adequados. Os hidrantes internos não funcionaram por falta d’água, e a única escada transformou-se em uma verdadeira chaminé.
O resultado foram 181 mortes e mais de 300 feridos. Essa tragédia foi um divisor de águas na legislação de incêndio, levando à criação de normas mais rígidas e à exigência de brigadas treinadas nos edifícios – algo que não era obrigatório na época.

Já em janeiro de 2013, o incêndio na Boate Kiss, no Rio Grande do Sul, matou 242 jovens que estavam em uma casa noturna superlotada. Entre os fatores da tragédia estiveram a falta de saídas de emergência adequadas, uso impróprio de artefatos pirotécnicos em ambiente fechado e despreparo total para emergências. Embora fosse um tipo de estabelecimento diferente (uma boate), a lição reforçada foi similar: a ausência de pessoal treinado e de planos de contingência resulta em caos, atrasando o socorro e elevando o número de vítimas. Esses eventos serviram de alerta nacional sobre a importância de preparar pessoas e estruturas para situações de incêndio.
Por outro lado, quando há brigadas bem treinadas, os desfechos tendem a ser muito melhores, mesmo em incidentes que poderiam se agravar.
Um exemplo positivo ocorreu em outubro de 2024 no Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília: um princípio de incêndio atingiu um dos anexos do prédio, causado por um curto-circuito. Os brigadistas do STF agiram imediatamente, evacuando todos os servidores pelas escadas e acionando o alarme; em poucos minutos, controlaram o foco inicial antes mesmo da chegada do Corpo de Bombeiros.

Não houve feridos, graças à pronta resposta e à organização da equipe interna de emergência. Caso semelhante aconteceu no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em agosto de 2025, quando um veículo pegou fogo na garagem do prédio. Novamente, a brigada de incêndio entrou em ação rapidamente e conteve as chamas iniciais, enquanto coordenava a saída preventiva de milhares de pessoas que estavam no edifício.
Cerca de 3 mil servidores e colaboradores foram evacuados em poucos minutos, sem tumulto ou feridos, devido à eficiência e ao profissionalismo dos brigadistas. A atuação foi tão bem-sucedida que os ministros do STJ fizeram questão de elogiar publicamente a equipe de brigada, ressaltando que seu preparo evitou danos maiores e salvaguardou a todos.

Esses casos reais ilustram dois lados da moeda. Nas tragédias como Joelma e Kiss, vimos que a falta de treinamento e planos de emergência custou muitas vidas e levou a mudanças drásticas nas leis. Já nos incidentes recentes em grandes órgãos públicos, fica evidente o quanto treinamento adequado e investimento em brigadas de incêndio fazem a diferença – evitando vítimas, controlando o sinistro ainda em fase inicial e trazendo tranquilidade mesmo em situações de risco. Para as empresas, isso significa que prevenir é, de fato, muito melhor que remediar.
Contar com pessoas capacitadas pode evitar que um princípio de incêndio vire notícia negativa e, principalmente, pode proteger aquilo que há de mais valioso: as vidas humanas.